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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Como aprender Física com situações do seu dia a dia (O Globo)

Esportes, a mudança na cor das folhas que caem das árvores, nosso almoço de todos os dias e o uso da tecnologia touch screen. Essas fatos diversos são apenas alguns dos eventos cotidianos que apresentam oportunidades objetivas de aprender Física no dia a dia. Porque é um erro achar que a matéria se resume unicamente aos cálculos e fórmulas.

Os professores recomendam que o aluno relacione o que aprende na sala de aula com o seu cotidiano. Os Jogos do Rio, que monopolizam a atenção do mundo neste momento, podem ser inclusive uma boa maneira de começar, como indica Bruno Henrique da Costa, professor dos colégios Santa Mônica e do Notredame.

– Ao nadar, o nadador empurra a água para trás. Automaticamente, a água o joga para frente. Esse movimento de vai e volta é a Lei de Newton. O nadador mais alto, com membros mais compridos, terá mais envergadura e irá conseguir empurrar mais água para trás. E assim a água irá empurrá-lo para frente. Quem tem o braço um pouco menor terá que girar o braço mais vezes para compensar. Isso é pura Física.
Imaginar um carro fazendo uma curva em alta velocidade é outra oportunidade para aprender:

– Meus alunos sabem que um carro, para fazer uma curva, não pode entrar muito rápido nela. Isso acontece por causa das forças de atrito e centrípeta. Os alunos acham que não precisam pensar nessas forças, mas pensam, intuitivamente. Se não posso entrar na curva a 180 km/h é porque o atrito não vai ser suficiente pra manter o carro no chão e a força centrípeta não vai conseguir deixar o carro na curva.
Mesmo quem anda a pé pode aprender, especialmente se estiver subindo uma ladeira.

– Pode reparar: as pessoas naturalmente sobem em ziguezague, pois percebem na prática que cansa menos do que subir em linha reta – aponta Bruno.

Robson Vieira é professor do Colégio Notredame, Colégio Sarah Dawsey e Escola do SESI. Ele traz de volta o tema esportes citando a prática do arco e flecha.

– Quando o arco fica flexionado e tensionado com a flecha, ele fica com uma energia potencial elástica, uma energia acumulada. Quando a flecha é liberada, essa energia se transforma em energia sintética, energia de movimento. Então a flecha adquire velocidade e atinge o alvo. Ao atingir o alvo, ela tem também o poder de penetração do alvo, que ainda transforma parte da energia em som e calor.

Física na cozinha

Dá para estudar Física também quando observamos a diferença entre um alimento cozido na panela de pressão e outro, em uma panela comum - Fotolia
Observar a ação do tempo nos alimentos também nos ajuda a aprender, como destaca Robson da Silva Gonçalves, professor da Escola Técnica Rezende-Rammel, ao falar da termometria:

– Você já reparou que o pão fica duro rapidamente se deixado fora do saco plástico? Mas por que isso acontece? É simples: a maciez do pão está relacionada à quantidade de água que existe em seu interior. Se o pão fica fora do saco, sua água evapora e ele endurece.

Ainda no território da cozinha, Robson da Silva fala do cozimento dos alimentos na panela de pressão:

– Em uma panela normal, a água ferve a 100°C. Quando a gente usa uma panela de pressão, essa temperatura aumenta. O feijão na panela de pressão está sendo cozido a 120°C. Quando os alimentos são cozidos a uma temperatura maior, as reações químicas associadas ao cozimento ocorrem mais rapidamente, por isso o cozimento é mais rápido.

Como funciona o touchscreen

Robson Viera agora toma como exemplo a tecnologia do touchscreen, cada vez mais presente em dispositivos como smartphones, tablets e TVs, para falar de eletricidade.

– Essas telas capacitivas são formadas por uma camada eletricamente carregada que fica sobre a tela. Quando tocamos a tela, a gente recebe algo similar a um choque, só que imperceptível para nós. Mas o aparelho percebe essa descarga na tela, o que faz com que ele calcule as coordenadas do toque e saiba o local aonde ele aconteceu, transformando-o em comando de tela.

Com um exemplo muito mais rudimentar, ele faz referência a mudança da textura e cor das folhas ao cair das árvores no outono:

– Como preparação e armazenamento para o inverno, as folhas têm seus açúcares e amido removidos. Sem o verde nas folhas, o amarelo começa a se mostrar, podendo ser alterado para o vermelho, laranja e até mesmo púrpura. Tudo depende da acidez das substâncias químicas da folha.

Robson Vieira também finaliza apontando a principal razão de estudar física no cotidiano:

– Todos os fenômenos da natureza são explicados pela física. Ela mostra como tudo na natureza está conectado e de que forma essas conexões acontecem. Um aluno que não vence essa barreira provavelmente terá muitas dificuldades de leitura do mundo. Sofrerá com a dificuldade de desenvolver sua capacidade de observação, análise, raciocínio lógico, comunicação, abstração.


por UNIVERSIDADE VEIGA DE ALMEIDA

Matéria publicada no Portal O Globo - 17/08/2016 - Rio de Janeiro, RJ


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'Pokemon Go' não é destinado às crianças (Rosely Sayão)


Muitos pais se afetam tanto com os caprichos dos filhos. O capricho atual é jogar "Pokemon Go". Então vamos enfrentar a fera, já que inúmeros pais querem saber se deixam o filho ter o jogo, qual a idade para começar, se pode prejudicar, se pode beneficiar, qual o tempo que se deve permitir que a criança se dedique ao jogo, como fazer para ela aceitar o limite de tempo etc.

Um pai pegou um táxi só para que o filho conseguisse caçar uma determinada criatura do jogo, outro deixou a filha de 11 anos ir até um lugar que considera perigoso porque ela estava acompanhada de outras colegas e "precisava" muito ganhar um ovo virtual. O pai ficou preocupado, mas permitiu. Assim fica difícil!

Meus caros pais, um jogo é um jogo, apenas isso. As características desse em particular revelam que ele não é destinado às crianças. Quantas delas saem para o espaço público desacompanhadas de um adulto na "vida real"? Como nossas crianças são jovens desde os primeiros anos de vida, porém, foram capturadas pela sensação do momento. Mas os pais devem ter suas referências, e não abdicar delas só porque a atividade virou febre social.

O primeiro passo é conhecer o jogo: como funciona, quais as metas, o que o filho deve fazer para alcançá-las. Se, para a família, ele não é inconveniente, não transgride os princípios priorizados, não apresenta imagens ou atos que ela não aceite, ela pode permitir que o filho brinque. Não é preciso aprender a jogar ou apreciar, mas é necessário conhecer os princípios básicos do aplicativo antes de permiti-lo.

O segundo passo é avaliar o tempo que o filho tem em seu cotidiano para ajudá-lo a administrar isso entre todas as atividades e ainda ter tempo para ficar sem fazer nada. Como há crianças mais rápidas e outras que dedicam mais tempo a cada atividade, não é possível determinar um tempo padrão. Aqueles que fazem tudo mais rapidamente não podem dedicar tanto tempo ao jogo; os que fazem tudo mais tranquilamente, porém, podem brincar mais, por exemplo.

Uma coisa é certa: a criança e o jovem têm muito o que fazer e pensar, por isso não podem se limitar a uma atividade específica. Caros pais, observem o tamanho e a complexidade do mundo que eles precisam conhecer!

Quando uma criança ou jovem gosta muito de algo, seja por iniciativa pessoal ou por adesão do grupo, é fácil para ele ficar horas e horas só naquilo, prejudicando todo o resto. Os pais não devem permitir. Para tanto, devem fazer valer sua autoridade, dizendo "agora chega". Isso vale para tudo, porque os mais novos ainda não têm ou estão desenvolvendo seu índice de saciedade. E o "agora chega" dos pais ajuda muito a estabelecer esse limite.

Os filhos vão reclamar, choramingar, brigar, implorar, insistir, tentar negociar, seduzir, propor trocas, chantagear. São as estratégias que têm para alcançar o que querem. E são, portanto, legítimas.

Os pais precisam bancar tudo isso e firmar sua decisão, mesmo que seja para aguentar cara feia. Aliás, os filhos sabem muito bem que isso costuma funcionar. Mas cara feia passa, lembram disso?

Por fim, é importante ensinar, nas entrelinhas, que não é bom se tornar escravo de um capricho, de um gosto, de uma diversão. É muito melhor prepará-los para que sejam autônomos e livres, não é?




'Pokemon Go' não é destinado às crianças  (Rosely Sayão)

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

Matéria publicada na Folha de São Paulo, 16 de agosto de 2016.

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Processos de transição (Rosely Sayão)

Passamos o dia em processos de transição: do estado de sono ao de vigília, da roupa confortável à de trabalho, do ambiente protetor de casa ao espaço público. Durante um único dia, passamos por muitas dessas transições quase que automaticamente, sem termos de pensar sobre elas. Algumas vezes as transições são penosas, porém, como adultos, suportamos todas elas e sempre seguimos em frente.

Poucas vezes pensamos que, para os mais novos, essas transições são bem mais difíceis do que para nós. Exigimos que eles se comportem como nós, ou seja, que aceitem as transições sem resistirem tanto a isso. As resistências deles são encaradas como teimosia, transgressão ou rebeldia. Contudo, o que eles precisam é de nossa intervenção colaborativa para que, aos poucos, aprendam a passar por essas transições sem muito sofrimento.

Uma das passagens mais difíceis é a que as crianças têm de fazer diariamente entre a casa e a escola. Colocar o uniforme, ir para a escola e ouvir o sinal para as aulas não são suficientes para que elas realizem tal transição. Elas precisam de bem mais do que isso, porque o que está em jogo nessa passagem é um processo bastante complexo.

As crianças têm de deixar um local em que o eixo das relações é o afetivo, e ir para outro em que o eixo da convivência é impessoal; passam de um ambiente com normas e princípios próprios, onde ela é única, para estar em um outro com normas e princípios coletivos onde ela é apenas mais uma entre tantas outras. E essas passagens exigem rituais que facilitem sua realização. Quando eles não ocorrem, muitas crianças não fazem a passagem, ou seja, comportam-se na escola como costumam viver em casa.

A escola deveria, portanto, construir rituais para facilitar essa transição para as crianças. Essa é uma das maneiras de ajudá-las a saírem do lugar de filha/o e passar para o lugar de aluna/o. Mas, o que muitas escolas fazem é exatamente o oposto, dificultando a transição para as crianças. Dou apenas dois exemplos que já mostram essa questão: chamar a professora de "tia" e os colegas de classe de "amigos" só faz com que as crianças permaneçam fixadas no ambiente familiar e, por isso, tenham dificuldades em passar ao ambiente público.

Outra transição que não é fácil para as crianças é recolher-se para dormir. Deixar de ficar acordado e em companhia de pessoas com quem têm um intenso vínculo afetivo para o estar sozinho e recolhido, da situação de realização de atividades para a de repouso, não é simples para elas. É por isso que precisam de ajuda. Portanto, as famílias podem colaborar criando rituais que apontem para a criança que ela está para entrar em estado de repouso e recolhimento solitário.

Diminuir a intensidade de atividades, de ruídos e de luminosidade da casa, por exemplo, já sinalizam para elas o início do processo da transição; realizar a higiene pessoal para o repouso, trocar-se e ouvir histórias são outros exemplos que podem fazer parte do ritual.

Aprender a ficar sozinha mesmo acordada prepara a criança para dormir. Fazer com que ela durma já é outra história, porque quase ninguém consegue controlar essa questão, não é verdade?

Precisamos lembrar sempre que a criança ainda está em formação, construindo seus recursos para enfrentar a vida.


Processos de transição (Rosely Sayão)

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
 
Matéria publicada na Folha de São Paulo, 23 de agosto de 2016.

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Cartas e artes viram tática contra evasão escolar (Folha)

O cenário do Colégio Estadual Dona Genoveva Rezende de Carneiro, o único de ensino médio em Itaguari (GO), era o de uma terra arrasada até um ano e meio atrás, diz a diretora Ireni Mota, 55.

Havia banheiros pichados, torneiras e vidraças quebradas. Lixo por todo lado, as salas mais pareciam "um cemitério de carteiras". A evasão chegou a 40% no período noturno. O índice geral de faltas beirava os 30%.

Na cidade que é um dos polos da confecção de lingerie do país, os jovens trocavam as aulas pelas oficinas de costura. "Ou por drogas", afirma a diretora.

Para reverter esse quadro, Mota criou uma estratégia de guerra. Mapeou a cidade e catalogou o endereço de cada aluno que havia abandonado a escola. O passo seguinte foi mobilizar os alunos mais frequentes para que eles chamassem de volta os colegas faltosos por meio de cartas enviadas pelos Correios.

Em uma das correspondências às quais a Folha teve acesso, uma aluna do 3º B escreveu para o colega. "É complicado conseguir um emprego decente sem o ensino médio completo. A sua falta me incomoda, pois quero ver todos os amigos se formarem."

O projeto deu bons resultados: atraiu 10% dos que estavam fora de sala. "Eles tomaram consciência de que, se a evasão crescesse muito, a escola poderia até fechar."

Segundo especialistas, a nova arquitetura escolar exige um diretor mais próximo de sua comunidade. "Aquele que estabelece vínculos, divide responsabilidade, mobiliza, lida com crises, mapeia e traça metas, atinge resultados mais duradouros", afirma Tatiana Belo, especialista em gestão escolar da Fundação Itaú Social.

E leva tempo. No caso da escola Didacio Silva, em Teresina (PI), exatos dez anos.

Em 2005, a unidade viu um ex-aluno ser morto a tiros em uma briga de gangues durante uma feira de ciências. Em 2015, obteve o título de escola com a melhor gestão do Piauí, concedido pelo Ministério da Educação. Como chegou lá? "Dançando", afirma Alberto Vieira, 47, diretor do colégio há 11 anos.

Vieira ouviu os alunos e encontrou nas artes o caminho da mudança. "Por meio do teatro, da dança e da música, ensinamos matemática, física e química", diz. O índice de evasão da Didacio caiu de 30% para zero. Em 2015, 80% dos alunos que prestaram o Enem conseguiram uma vaga na universidade.

Mota e Vieira também buscaram capacitação. São crias do Jovem de Futuro, programa do Instituto Unibanco que ensina práticas de gestão a diretores. A ação funciona nas redes estaduais do Piauí, Ceará, Pará, Espírito Santo e Goiás –atingiu 2.500 escolas nos últimos oito anos.

"O programa preenche a lacuna deixada pela universidade que ainda não ensina o professor a administrar uma escola na prática", diz o pedagogo Alexsandro Santos, gerente do instituto.

Diretora da Escola Rio Tocantins, em Marabá (PA), Hellen Nyde, 39, expõe o maior desafio da função: "É lidar com problemas que não dependem da minha gestão. Minha escola ficou um ano sem professor de português em quatro turmas do ensino médio e não pude fazer nada."


DHIEGO MAIA

Matéria publicada na Folha de São Paulo, 18 de setembro de 2016.

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Professor deve estar pronto para lidar com administração e políticas públicas (Folha)

O gestor escolar é um educador, um administrador e o líder da equipe interdisciplinar que trabalha pelo aprendizado do aluno. Segundo especialistas, no entanto, falta tempo, prática e proximidade com a realidade escolar na formação docente. É preciso mais para preparar um profissional múltiplo como esse.

"Muitos professores chegam inseguros à escola, sem saber o que um gestor faz. A carga horária é insuficiente para discutir todos os assuntos", afirma Alessio Costa, presidente da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação).

Uma resolução do CNE (Conselho Nacional de Educação), de julho de 2015, estabeleceu que as licenciaturas de qualquer área, além dos cursos de pedagogia, precisam tratar de tópicos de gestão educacional.

De acordo com Costa, conhecimentos de administração aplicados à gestão escolar, relações interpessoais e políticas públicas precisam estar sólidos para que o gestor resolva problemas nessas áreas de maneira mais eficiente e priorize o ensino.

"Professores de todas as disciplinas devem ter noções da administração de uma escola. Mesmo que não se tornem diretores, ele irão participar da gestão", diz Cesar Callegari, sociólogo e diretor da Faculdade Sesi de Educação, que inicia suas atividades em 2017, em São Paulo.

Maria Cecilia Amendola da Motta, professora de ensino básico e vice-presidente do Consed (Conselho Nacional de Secretários de Educação), concorda e acrescenta que a capacitação em tecnologia é importante para uma administração mais eficaz.

"Com ferramentas tecnológicas, o gestor consegue otimizar o trabalho do meio, como documentação escolar, compras, grades de horário e matrículas, para focar no fim, que é o aprendizado do estudante", afirma ela.

"Oferecer uma boa formação é possível com o currículo integrado", avalia Cristina Nogueira Barelli, coordenadora do curso de pedagogia do Instituto Singularidades.

No curso de pedagogia que o instituto oferece, as disciplinas de didática e cultura estão na grade curricular combinadas com matérias de políticas públicas, gestão e planejamento escolar.

"Gestor e professor trabalham para o sucesso do aluno. Algumas habilidades são úteis para a sala de aula e também para exercer cargos de gestão", diz Barelli.

As duas atividades são indissociáveis, diz Motta, do Consed: "O docente é um gestor dentro da sala de aula. Se o gestor não vivenciou essa experiência, não tem como cumprir seu papel". PRATICAR

"Gestores lidam com questões conflitantes e fazem intermediação entre políticas públicas e a escola", diz Maria Cecília Luiz, professora do departamento de educação da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos).

Ela defende maior articulação entre teoria e prática nos cursos de formação inicial, para ajudar a compreensão dos problemas da escola.

Alessio Costa, da Undime, lembra que a realidade da escola é dinâmica, com mudanças rápidas. "Quanto maior o diálogo entre escola e universidade, melhor será a formação, porque as discussões sobre as dificuldades da educação saem da dimensão estritamente teórica e chegam até a sala de aula", diz.

EVERTON LOPES BATISTA

Matéria publicada na Folha de São Paulo, 18 de setembro de 2016.

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Diretora de escola americana estimula frequência lavando roupa suja (Folha)



Melody Gunn, diretora da Escola Elementar Gibson, em St. Louis (EUA), queria aumentar os índices de frequência dos alunos. Os estudantes tinham acesso a transporte e almoço gratuito ou a preços subsidiados e mesmo assim faltavam às aulas.

Ela decidiu ir até a casa das famílias com mais de uma criança matriculada na instituição para identificar o motivo que as fazia ficar em casa. Descobriu que era algo tão simples quanto inesperado: roupa suja.

Muitos pais não tinham dinheiro para comprar uma máquina de lavar roupa. E aqueles que tinham a lavadora não podiam pagar pelo sabão e pela energia elétrica.

"O dinheiro deles era contado para necessidades como comida e aluguel", diz Gunn, em entrevista à Folha.

A consequência é que os alunos não tinham peças limpas para ir à escola e desistiam de frequentar as aulas por vergonha. "Muitos alunos têm apenas um conjunto de uniforme. Se eles o sujavam no começo da semana, simplesmente ficavam em casa até que a roupa pudesse ser limpa", explica a diretora.

Gunn comentou sobre o problema de sua escola com uma amiga que trabalha na Whirlpool, multinacional fabricante de eletrodomésticos. A empresa se interessou pela história e decidiu doar uma lavadora e uma secadora para a escola, além de providenciar todo o sabão necessário.

A diretora reuniu então os alunos com mais de dez faltas no ano e pediu que trouxessem suas roupas para serem lavadas na escola.

A recepção foi positiva. "As crianças amaram as máquinas, diziam que pareciam naves espaciais. Logo, pediram para expandirmos o programa para itens como lençóis e toalhas", afirma Gunn.

As máquinas são operadas por funcionários da Gibson.

PROGRAMA NACIONAL

Após a doação, a Whirlpool decidiu investigar se aquele era apenas um caso isolado. Uma pesquisa com 600 professores ao redor dos EUA apontou que um em cada cinco alunos era afetado pela falta de roupas limpas em casa.

"Nós ficamos surpresos com o alto índice, e também pelo fato de ninguém estar discutindo o efeito disso na frequência escolar", diz Chelsey Lindstrom, gerente de marca da Whirlpool. A empresa criou um programa nacional e doou máquinas a outras 16 escolas em distritos de St. Louis, no Missouri, e Fairfield, na Califórnia.

O balanço do primeiro ano do programa feito pela companhia mostrou que 93% dos estudantes melhoraram sua frequência escolar. Entre os casos mais críticos, o aumento chegou a duas semanas, em média. Ao todo, 95% tiveram maior participação dentro da sala de aula e demonstraram maior interesse em atividades extracurriculares.

O plano é expandir o programa para 40 escolas nos EUA até o fim deste ano. Não há projeto de levar a ação para outros países onde a Whirlpool atua, como o Brasil.

"Os números mostram como algo tão simples pode ter um grande impacto não apenas nos estudantes, mas também nos pais e na comunidade", diz Lindstrom.

MARCIA SOMAN

Matéria publicada na Folha de São Paulo, 18 de setembro de 2016.
 
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Dados do Enem e da Prova Brasil não são traduzidos em melhoria do ensino (Folha)



O Brasil aprendeu a avaliar a educação, mas não sabe aproveitar os resultados para melhorar o próprio sistema de ensino. Essa é a percepção dos especialistas com base no uso que o país faz dos principais exames de larga escala: Prova Brasil e Enem.

"Pegamos os resultados para fazer um uso classificatório, seletivo e excludente", diz Cipriano Luckesi, professor da Universidade Federal da Bahia e doutor em avaliação do aprendizado. "Não sabemos ainda fazer o primordial: dar destino pedagógico ao resultado da avaliação."

A Prova Brasil testa conhecimentos dos alunos do quinto e do nono anos do ensinofundamental em língua portuguesa e matemática. As notas deles junto à taxa de aprovação compõem o Ideb, principal indicador de qualidade da educação básica.

Já o Enem, aplicado aos formandos do ensino médio, é hoje o principal meio de acesso à maioria das universidades públicas do país.

Nos dois casos, os dados coletados formam uma grande base de informações que é subutilizada por não haver a cultura dessa apropriação nem profissionais preparados para análise.

"Ninguém trabalha bem esses dados. São números que não fazem sentido no dia a dia da escola. Afirmar que o Ideb de uma rede é 3,4 é como dar uma caixa-preta fechada no colo do gestor", compara a presidente do movimento Todos pela Educação, Priscila Cruz.

"O número só faz sentido se o diretor e o professor puderem usá-lo como forma de melhorar seus processos."

Numa tentativa de facilitar esse entendimento, o Inep, órgão do Ministério da Educação responsável pelas avaliações, lançou a plataforma Devolutivas Pedagógicas. A ferramenta permite a professores e gestores saber quais são os conhecimentos já dominados pelos alunos e quais devem ser trabalhados para que atinjam aproveitamento mais alto na Prova Brasil.

"Como os itens são comentados, dá para perceber se o aluno errou uma questão de matemática por não entender o conceito ou se só fez uma conta errada. Começamos a abrir a caixa-preta", diz Cruz.

Em um ano, a plataforma teve 18.645 usuários cadastrados. É menos de 1% dos docentes da educação básica, que somam 2,1 milhões. A adesão ainda é pequena.

"Além de a plataforma ser pouco palatável, fazer com que os resultados das avaliações sejam revertidos em melhoria implica não só contar ao professor o que precisa ser ensinado de forma mais eficaz. É preciso dar condições para isso", diz Roberta Panico, que coordena a Comunidade Educativa Cedac.

Alguns conteúdos serão mais bem ensinados e aprendidos se o professor tiver um laboratório. Em outros casos, os recursos devem ser investidos em programas de formação continuada.

O Ideb baixo fez com que o município de Monção, a 250 km de São Luís (MA), criasse um sistema de avaliação a partir das competências aferidas na Prova Brasil. O exame foi aplicado em 2014 e, a partir dos resultados, foi criado um projeto de intervenção.

"Vimos as principais dificuldades dos alunos e capacitamos de forma contínua diretores e professores para que trabalhassem essas áreas", explica Lindomar Lindoso Pinheiro, supervisor pedagógico do município, que tem cerca de 150 escolas.

No fim de 2014, o exame foi reaplicado e os alunos evoluíram. "O docente se sentiu incluído e capacitado. Por isso deu certo", diz Pinheiro.

É um tipo de procedimento incomum e no caminho oposto ao usual, analisa o professor da Faculdade de Educação da USP Ocimar Alavarse. "Em vez do rumo pedagógico, o que se vê é a responsabilização de professores pela via da bonificação."

Alavarse se refere às políticas que algumas redes implantaram para premiar professores e escolas com maiores notas no Ideb e no Enem.

A estratégia correta, na opinião dele, é incluir os docentes em todo o processo. "Isso faria inclusive com que acabasse o preconceito que a categoria tem em relação a essas provas."

OCIMARA BALMANT

Matéria publicada na Folha de São Paulo, 18 de setembro de 2016.

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Muito além do berço (Rosely Sayão)

Quase todo mundo já ouviu frases como "essa criança é assim porque os pais não dão limites a ela", "esse jovem entregou-se às drogas porque os pais se separaram quando ele era muito pequeno" ou similares.

Todas elas dizem respeito a um contexto que já fez muito sentido, mas que não faz mais: a de que a "educação vem do berço", ou seja, tudo o que um mais novo faz ou deixa de fazer está direta e unicamente ligado ao que aprendeu ou deixou de aprender com sua família.

Por que essa ideia não é mais aplicável? Por diversos motivos, mas hoje vou tratar de um deles: porque não é mais somente a família que educa seus filhos. Tomemos alguns exemplos.

Uma jovem de 16 anos tem utilizado de maneira quase obsessiva todos os aparelhos disponíveis para estar sempre plugada nas redes virtuais. Os pais não deram celular a ela antes que fizesse 14 anos, usava internet sempre acompanhada de perto e nunca pôde ter páginas em qualquer rede social antes dos 16 anos. Mas, assim que ganhou o acesso, fez adesão total aos aparelhos e à rede.

Dois irmãos, ainda na infância, fazem parte de uma família que usa palavrões com muita parcimônia e não usa a maioria deles por considerá-los ofensivos, humilhantes, grosseiros etc. Acontece que os filhos têm aprendido muitos deles na escola e os repetido, por mais que os pais conversem e expliquem que não devem fazer.

Uma garota de 15 anos está em tratamento porque só come "porcarias" e isso tem lhe custado problemas de saúde. A família faz pelo menos uma refeição em grupo diariamente e a alimentação é caseira e saudável, sem exageros.

Faltou "educação de berço" a essas crianças e adolescentes? Não. Acontece que todos eles são educados também na escola –e não apenas pelos educadores profissionais–, pelas mídias de todos os tipos, pelo contexto social em que vivem e também por aqueles que observam à distância, pelos estilos de vida que são adotados por grupos que eles admiram, pelo nosso trânsito e as barbáries que nele acontecem etc. E muitos outros "et ceteras"...

Hoje, a família é mais a referência que dá aos filhos o norte do grupo ao qual pertencem do que fonte principal da educação. Quando os pais proíbem os filhos de qualquer coisa por colidir com seu norte, isso não significa que o filho irá acatar a proibição, mas, se ele tiver apreço pelo sobrenome que carrega, certamente irá lembrar-se da proibição antes de fazer suas escolhas.

Os pais da garota que usa a tecnologia com tanta voracidade podem, por exemplo, acordar um tempo sem uso quando estão todos juntos, não muito mais do que isso. A família dos irmãos que falam palavrões pode vetar o uso deles em casa e explicar por que criticam o uso deles, por qualquer pessoa, inclusive as que aparecem usando tais palavrões nas mídias, como alguns políticos. Finalmente, os pais da adolescente que só quer comer fast-food podem diminuir o acesso dela a esse tipo de comida e insistir para que as refeições que têm juntos sejam um bom momento afetivo.

O que importa é que as famílias apontem sempre o seu norte, e que todos tenham consciência de que a educação que os pais dão aos filhos NÃO É vacina contra nada. Quem sabe assim deixemos de responsabilizar apenas a família por tudo o que ocorre com os mais novos, não é?


Muito além do berço  (Rosely Sayão)
 
ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)
 
Matéria publicada na Folha de São Paulo, 20 de setembro de 2016.
 
Também publicado na UDEMO


Professores e alunos são tratados como peões de xadrez na educação (Rosely Sayão)


Mais uma vez, como costuma acontecer na educação, alunos e professores foram ignorados nas propostas de mudança para o ensino médio contidas na medida provisória do atual governo.

Aliás, entra governo, sai governo, entra um século novo, passa outro, e continuamos tratando alunos e professores como os peões no jogo de xadrez que é a educação escolar: estão lá em maior número, mas são peças menores, com movimentos muito restritos.

Esta é a visão da educação formal adotada em nosso país, tanto em escolas públicas quanto privadas: dar voz a professores e alunos não é cogitado. De vez em quando, uma escola aqui, outra acolá realizam reuniões regulares com professores e os ouvem verdadeiramente, permitindo que influenciem os rumos tomados pela instituição.

Mas esse fato ainda é raro: muitas reuniões até são realizadas por um grande número de escolas, mas são apenas instrumentos burocráticos para levar o professor a acreditar que ele realmente é participante ativo do processo escolar. Não é, e os professores sabem muito bem disso.

Hoje quero dedicar minhas reflexões aos alunos, principalmente os que estão prestes a cursar o ensino médio e os que já nele estão. Você já deve ter ouvido falar, caro leitor, daqueles jovens que muitos discursos, de organizações educacionais, inclusive, chamam de protagonistas e afirmam lhes dar autonomia, não? Pois saiba que de protagonismo e autonomia, em suas vidas escolares, pouco –quase nada– eles têm.

A nova proposta em curso "parece" oferecer essas duas condições a eles, mas é ilusão. Como um aluno que, durante todo o ensino fundamental, foi comandado e teve de ter postura passiva em seu processo escolar pode, ao entrar no ensino médio, fazer suas escolhas?

Ora, autonomia não se ganha: conquista-se. E isso acontece em um processo em que haja ofertas graduais de condições para que os alunos caminhem, passo a passo, rumo ao estado de poder fazer boas escolhas, ou seja, pensadas, ponderadas, informadas. Se hoje os alunos que terminam o ensino médio já sofrem para escolher um curso universitário, imagine, caro leitor, o que acontecerá com o aluno iniciante!

Sim, temos jovens autônomos, mas isso se deve principalmente às famílias e a eles mesmos. A escola pouco tem oferecido para que eles a conquistem!

E o que dizer, então, do período integral na escola? Todos os que se dedicam aos estudos sobre adolescentes sabem que há aspectos importantes em sua formação que têm sido negligenciados pela escola. Um deles é o processo de socialização, e outro é o de desenvolvimento emocional. A escola não quer saber disso, ou não está preparada para trabalhar essas questões, mas o fato é que os jovens, na escola, ficam à mercê de seus impulsos, caprichos, egoísmo etc.

Não é à toa que temos um grande número de brigas físicas, confrontos e assédios de todos os tipos entre os alunos na escola: eles estão abandonados. Como a escola em período integral exige um projeto elaborado que contemple essas questões, o que dificilmente ocorrerá, podemos antecipar que os problemas entre os alunos, e destes com os professores, aumentarão.

Por que não levamos a sério os nossos jovens? Por que não os ouvimos a respeito dos rumos da sua vida escolar? Por que não aprendemos nada com as ocupações que realizaram?

Professores e alunos são tratados como peões de xadrez na educação  (Rosely Sayão)


ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

Matéria publicada na Folha de São Paulo, 27 de setembro de 2016.


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Aluno deve se sentir bem-vindo na escola o ano todo, e não só por adultos (Rosely Sayão)

Vamos falar de adaptação escolar. Mas você, caro leitor, deve estar se perguntando: a esta altura do ano letivo? E a resposta é sim, porque ainda constatamos que muitos alunos estão desadaptados à vida escolar e às suas exigências, ao convívio coletivo com seus pares de classe e de escola, às relações com professores e demais educadores escolares. E há um motivo importante para que isso tenha ocorrido: os processos de adaptação escolar são inexistentes na maioria das escolas.

Há poucos dias, conversei com a mãe de uma garota que, tendo se transferido de escola no início do segundo semestre, tem sofrido até agora com a agressividade de algumas colegas. A família já procurou a escola, e sabem o que ouviu de seu representante? Que a filha é muito bonita, causa inveja nas colegas e que, por isso, os eventos têm ocorrido. Como?

Vamos entender o que é adaptação. Em primeiro lugar, um aluno que se adapta a uma nova escola ou a um novo ano ou ciclo na escola que já frequentava, precisa sentir que é acolhido.

Acolhimento é dar as boas-vindas ao aluno, mas isso não deve ocorrer apenas nos primeiros dias em que ele chega à escola, mas diariamente, o ano todo. As boas-vindas sinalizam ao aluno que ele é bem quisto no ambiente escolar! Entretanto, ele não pode sentir que é bem-vindo apenas pelos adultos: precisa constatar que seus colegas também querem conviver bem com ele.

Acolhimento deve também oferecer ao aluno a percepção de que ele está em um ambiente seguro, principalmente no sentido emocional. Enfrentar grupos de colegas que o rejeitam não é um bom sinal disso, concorda, caro leitor? Ou seja: quando os pais de um aluno precisam procurar a escola porque o filho é, sistematicamente, hostilizado por algum colega ou grupo, isso é sinal de que a escola não se ocupa com o bem-estar emocional de seus alunos.

Acolher tem também o sentido de cuidar e, certamente, os alunos considerados "diferentes" pelos colegas e rechaçados por esse motivo não sentem que são bem cuidados pela escola. Se fossem, a instituição se anteciparia aos eventos e poderia, assim, oferecer a sensação a todos os alunos de que a escola cuida bem deles.

Para tanto, a instituição precisaria ter um planejamento minucioso de como realizar a adaptação escolar, que deve ocorrer durante todo o período letivo. Só assim o processo ganha um caráter profissional. Por quê? Quem é que não sabe que mesmo grupos de colegas que convivem bem podem, a qualquer momento, enfrentar conflitos? E sabemos que a administração dos conflitos que surgem entre os alunos não pode –aliás, não deve– ser realizada de modo espontaneísta ou de acordo com as convicções pessoais de cada professor ou trabalhador escolar, não é verdade?

Cada escola tem, hoje, um bom número de alunos que não se adaptaram ao processo escolar, ao convívio coletivo e público, à relação com as normas da instituição, à aprendizagem. E isso é responsabilidade da instituição.

Caro leitor, aí está uma boa dica para quando você conversar com a escola que seu filho frequenta ou que você pretende que frequente: perguntar qual o planejamento de adaptação escolar que ela tem, como ele é praticado, e se os alunos são envolvidos ativamente no processo ou se apenas recebem incumbências e/ou comandos de como se comportar.


 Aluno deve se sentir bem-vindo na escola o ano todo, e não só por adultos (Rosely Sayão)

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

Matéria publicada na Folha de São Paulo, 4 de outubro de 2016.

Publicado também na UDEMO


Aluno deve se sentir bem-vindo na escola o ano todo, e não só por adultos (Rosely Sayão)

Vamos falar de adaptação escolar. Mas você, caro leitor, deve estar se perguntando: a esta altura do ano letivo? E a resposta é sim, porque ainda constatamos que muitos alunos estão desadaptados à vida escolar e às suas exigências, ao convívio coletivo com seus pares de classe e de escola, às relações com professores e demais educadores escolares. E há um motivo importante para que isso tenha ocorrido: os processos de adaptação escolar são inexistentes na maioria das escolas.

Há poucos dias, conversei com a mãe de uma garota que, tendo se transferido de escola no início do segundo semestre, tem sofrido até agora com a agressividade de algumas colegas. A família já procurou a escola, e sabem o que ouviu de seu representante? Que a filha é muito bonita, causa inveja nas colegas e que, por isso, os eventos têm ocorrido. Como?

Vamos entender o que é adaptação. Em primeiro lugar, um aluno que se adapta a uma nova escola ou a um novo ano ou ciclo na escola que já frequentava, precisa sentir que é acolhido.

Acolhimento é dar as boas-vindas ao aluno, mas isso não deve ocorrer apenas nos primeiros dias em que ele chega à escola, mas diariamente, o ano todo. As boas-vindas sinalizam ao aluno que ele é bem quisto no ambiente escolar! Entretanto, ele não pode sentir que é bem-vindo apenas pelos adultos: precisa constatar que seus colegas também querem conviver bem com ele.

Acolhimento deve também oferecer ao aluno a percepção de que ele está em um ambiente seguro, principalmente no sentido emocional. Enfrentar grupos de colegas que o rejeitam não é um bom sinal disso, concorda, caro leitor? Ou seja: quando os pais de um aluno precisam procurar a escola porque o filho é, sistematicamente, hostilizado por algum colega ou grupo, isso é sinal de que a escola não se ocupa com o bem-estar emocional de seus alunos.

Acolher tem também o sentido de cuidar e, certamente, os alunos considerados "diferentes" pelos colegas e rechaçados por esse motivo não sentem que são bem cuidados pela escola. Se fossem, a instituição se anteciparia aos eventos e poderia, assim, oferecer a sensação a todos os alunos de que a escola cuida bem deles.

Para tanto, a instituição precisaria ter um planejamento minucioso de como realizar a adaptação escolar, que deve ocorrer durante todo o período letivo. Só assim o processo ganha um caráter profissional. Por quê? Quem é que não sabe que mesmo grupos de colegas que convivem bem podem, a qualquer momento, enfrentar conflitos? E sabemos que a administração dos conflitos que surgem entre os alunos não pode –aliás, não deve– ser realizada de modo espontaneísta ou de acordo com as convicções pessoais de cada professor ou trabalhador escolar, não é verdade?

Cada escola tem, hoje, um bom número de alunos que não se adaptaram ao processo escolar, ao convívio coletivo e público, à relação com as normas da instituição, à aprendizagem. E isso é responsabilidade da instituição.

Caro leitor, aí está uma boa dica para quando você conversar com a escola que seu filho frequenta ou que você pretende que frequente: perguntar qual o planejamento de adaptação escolar que ela tem, como ele é praticado, e se os alunos são envolvidos ativamente no processo ou se apenas recebem incumbências e/ou comandos de como se comportar.


 Aluno deve se sentir bem-vindo na escola o ano todo, e não só por adultos (Rosely Sayão)

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (Publifolha)

Matéria publicada na Folha de São Paulo, 4 de outubro de 2016.

Publicado também na UDEMO


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